Mia Couto
2ª Edição: dezembro 2012
Editorial Caminho
ISBN: 978-972-21-2557-4
78 páginas
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Um Gotejar Sem Chuva Nesse dia, meu pai apareceu em casa todo molhado. Estaria chovendo? Não, que o nosso telhado de zinco nos teria avisado. A chuva, mesmo miudinha, soaria como agulhinhas esburacando o silêncio. - Caiu no rio, marido? - Não, molhei-me foi por causa dessa chuva. - Chuva? Espreitámos na janela: era uma chuvinha suspensa, flutuando entre o céu e terra. Leve, pasmada, aérea. Meus pais chamaram àquilo um «chuvilho». E riram-se, divertidos com a palavra. Até que o braço do avô se ergueu: - Não riam alto, que a chuva está é dormindo… Durante todo o dia, o chovilho se manteve como um cacimbo sonolento e espesso. As gotas não se despenhavam, não soprava nem a mais pequena brisa. A vizinhança trocou visitas, os homens fecharam conversa nos pátios, as mulheres se enclausuraram. Ninguém se recordava de um tal acontecimento. Poderíamos estar sofrendo maldição. |